Nunca é tão fácil perder-se como quando se julga conhecer o caminho: a manobra de Lula, a soberba da direita e o que a virada de 26 revelou
O provérbio chinês é a chave para ler o que o Brasil viveu neste 25 de outubro. A eleição presidencial de 2026 não foi decidida apenas por votos. Foi decidida por duas certezas que se provaram falsas, uma de cada lado.
Comecemos pela primeira, e ela pertence ao campo que venceu. Às vésperas do primeiro turno, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva agiu como quem já conhecia o caminho. A 17 dias da votação, anunciou um reajuste de 15,04% no Bolsa Família, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691, com os primeiros pagamentos em 19 de outubro, já dentro da janela do segundo turno. Os pareceres que sustentaram a medida tramitaram em “procedimento excepcional”, sob sigilo, fora dos sistemas eletrônicos de praxe. Não se trata, aqui, de discutir saúde pública ou economia. Trata-se de ler o gesto no terreno que lhe é próprio: o político e o eleitoral. Foi uma manobra de calendário, calibrada para chegar ao bolso do eleitor no instante exato da decisão. Somadas, as medidas anunciadas em ano eleitoral ultrapassaram R$ 300 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado.
A certeza que ruiu
A segunda certeza era da direita, e essa desabou de forma espetacular. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% contra 45,16% de Lula. As pesquisas da véspera do segundo turno apontavam empate técnico, com leve vantagem para o senador (Quaest e Datafolha em 51% a 49%; AtlasIntel em 50,8% a 49,2%). A direita leu esses números como sentença. E foi aí que se perdeu.
O que se viu no segundo turno foi uma coleção de gestos de quem acreditava que a vitória estava comprada. Pablo Marçal reuniu cerca de 400 influenciadores em um auditório fechado em Barueri e definiu a estratégia: “esta eleição não é a da esperança, é a eleição do medo”, orientando os criadores de conteúdo a evitar ataques diretos a Lula. A arrogância não estava no discurso, mas na certeza de que o eleitor podia ser conduzido por um roteiro. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, os dois deputados mais votados da história da Câmara (3,1 milhões e 3 milhões de votos), transformaram a confiança em deboche. Pavanato escreveu que “nessa eleição não aceitamos perder”. Nikolas sentenciou: “ou a gente ganha, ou a gente ganha. Tá avisado”, e ainda falou em “mais um impeachment pra ano que vem”. Diante da prorrogação da votação até as 19h determinada pelo ministro Cristiano Zanin, o grupo questionou o processo antes mesmo do resultado e insinuou golpe. Nem a própria direita poupou a direita: Kim Kataguiri resumiu o clima ao dizer que de um lado havia “Lula com sangue nos olhos” e do outro “Nikolas e Pavanato fazendo micareta, sem um discurso combativo”.
O eleitor respondeu
O eleitor respondeu. Lula virou e foi reeleito com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% de Flávio (59.826.041). É uma virada inédita desde a redemocratização: nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar havia vencido. Lula conquistou mais de 10 milhões de votos entre os dois turnos, impulsionado por uma campanha que apostou no contato direto, em vídeos em formato selfie e em uma mobilização de base que reuniu mais de 10 milhões de pessoas em um movimento pró-Lula no WhatsApp. Flávio não reconheceu a derrota e anunciou que pediria a anulação do pleito.
E aqui entra o erro da esquerda, que também julgou conhecer o caminho. O erro foi subestimar o eleitor. A esquerda tratou o voto como algo previsível, ora confiando que o benefício no bolso decidiria a eleição, ora aceitando que o anti-petismo já havia selado o resultado. Nos dois casos, reduziu o eleitor a uma peça de cálculo. O eleitor provou ser outra coisa: reagiu, mudou de ideia e, sobretudo, puniu a soberba. A esquerda venceu mais pela reação do eleitor do que pela própria leitura que fazia do país. E quem não entende o país que governa governa no escuro.
O que a virada revela
A conclusão é mais profunda do que o placar. O bolsonarismo se construiu, desde o início, no espectro do anti-petismo. Foi essa a sua energia fundadora: a recusa a um campo, mais do que a afirmação de um projeto. Só que o discurso que a direita comprou veio acompanhado de algo que ela fingiu não ver. Os atos de quem aderiu a esse discurso, mas que moralmente defende o ódio, a misoginia, o preconceito contra LGBTs, nordestinos e pobres, o racismo e o flerte com o neonazismo, mancharam gravemente a direita. E o efeito foi o inverso do pretendido. O que era apenas rejeição a um partido se transformou em rejeição a um modo de ser. O anti-bolsonarismo deixou de ser um sentimento de nicho e se tornou uma força mais poderosa do que o anti-petismo que o gerou.
O provérbio se cumpre nos dois lados. A direita se perdeu porque tinha certeza de que conhecia o caminho. A esquerda quase se perdeu pelo mesmo motivo, ao subestimar quem decidia. Quem governa ou disputa o poder no Brasil, a partir de agora, precisará aprender a lição mais difícil: o eleitor não é um mapa que se lê de antemão. É um caminho que se descobre andando.