Com presente de aniversário, motorista de Ivinhema conquista CNH e vira símbolo do investimento que já dá resultado no Detran-MS
Paula Aparecida Silva Lima, 37 anos, esperou dois anos na fila do CNH MS Social. Aprovada no exame prático justamente no dia do seu aniversário, ela é a primeira candidata a concluir o processo após a chegada dos quatro veículos adaptados adquiridos pelo Governo do Estado.
Há investimentos públicos que demoram anos para mostrar a que vieram. Outros entregam resultado na primeira semana. O que aconteceu na manhã da última quinta-feira (5), em Nova Andradina, pertence ao segundo grupo — e tem nome, sobrenome e história.
A auxiliar de tecnologia agrícola Paula Aparecida Silva Lima, de 37 anos, moradora de Ivinhema, tornou-se a primeira candidata com deficiência a ser aprovada no exame prático de direção veicular após o Detran-MS retomar o atendimento represado com a chegada de quatro veículos adaptados. A aprovação veio no dia do seu aniversário. Virou presente.
“Para mim era um sonho tirar a CNH porque eu achava que não conseguia, mas consegui”
Dois anos de espera e o medo de perder o processo
Paula tem deficiência física congênita e estava inscrita no programa CNH MS Social, iniciativa estadual que custeia o processo de habilitação para quem não teria condições de arcar com os custos de um processo convencional. O problema é que o processo dela — como o de outros onze candidatos — ficou parado por dois anos.
O motivo não foi burocracia, nem falta de vontade institucional. Foi algo bem mais prosaico: os automóveis adaptados que o Detran-MS usava antes ficaram desativados por problemas mecânicos. Sem carro adaptado, não há aula prática. Sem aula prática, não há exame. E sem exame, o sonho fica na fila.
“Eu achei que eu ia perder, mas o professor Marcos falou para eu ficar tranquila, que eu não perdia, mas fiquei bem ansiosa”
A ansiedade tinha fundamento. Processos de habilitação têm prazo, e dois anos é tempo suficiente para qualquer candidato temer o pior. Paula concluiu as 12 aulas práticas restantes já nos novos modelos Fiat Argo, equipados com transmissão automática e adaptações especiais.
A avaliação dela sobre os comandos adaptados é direta: excelente e altamente satisfatória.
Os quatro veículos foram adquiridos pelo Governo do Estado e chegaram ao Detran-MS no início de novembro. Não são carros comuns com um adesivo na porta. A frota traz Transmissão automática, comandos manuais para acelerador e freio, pomo giratório no volante e dispositivos específicos para condutores de baixa estatura.

O foco imediato é atender as doze pessoas inscritas no CNH MS Social que aguardavam há dois anos. O cronograma começou em novembro e passa pelas Agências Regionais de Trânsito de Campo Grande, Jardim, Nova Andradina, Coxim e Paranaíba.
Mas o dado que explica a dimensão do problema está em outro lugar: em todo Mato Grosso do Sul, a rede de Centros de Formação de Condutores soma apenas cinco carros adaptados para esse público. Cinco. Para um estado com 79 municípios e quase 3 milhões de habitantes.
É por isso que a entrega do Detran-MS não é apenas uma compra de frota. É a criação de uma capacidade pública que simplesmente não existia em escala. Segundo o órgão, depois de zerar a demanda represada, o plano é estender o uso dos veículos para toda a população PCD, por meio de programas que já estão em estudos.
Nos bastidores da conquista de Paula está o Gestor de Educação para o Trânsito e instrutor Marcos Alexandre, que acompanhou cada etapa do processo.
“A gente recebe a aluna às vezes com uma timidez, com a ideia de que ela não vai conseguir, mas ao mesmo tempo observamos a vontade de superar a dificuldade e alcançar o objetivo”
Para ele, atuar como facilitador nesse processo de ascensão social é uma missão gratificante — e o orgulho de ver a alegria no rosto da aluna ao receber a notícia da aprovação é a recompensa.
A diretora de Educação do Detran-MS, Andrea Moringo, reforça que a iniciativa segue as diretrizes do governador Eduardo Riedel para garantir que os investimentos públicos alcancem toda a sociedade, sem deixar ninguém para trás. Sobre a chegada dos veículos, ela foi enfática:
“Aguardamos ansiosos a chegada dos veículos para conseguir atender essa demanda represada e ampliar para pessoas PCDs que necessitam muito”
Já o diretor-presidente do Detran-MS, Rudel Trindade, classifica a entrega como importante para a sociedade e parte da política do Governo do Estado sempre cobrada por Riedel, para que os investimentos alcancem todos os cidadãos.
Muito além de um documento, vale parar um instante no que uma CNH significa para quem tem deficiência física em Mato Grosso do Sul.
Não é vaidade, não é status, não é conveniência. É autonomia. É poder ir ao trabalho sem depender de terceiros. É resolver uma consulta médica em outra cidade. É buscar um filho na escola. É o direito de ir e vir — aquele que a Constituição garante no papel e que, na prática, depende de um carro adaptado, de um instrutor preparado e de um Estado que enxergue o cidadão na sua especificidade.
Paula resumiu bem o que estava em jogo:
“Para mim era um sonho tirar a CNH porque eu achava que não conseguia, mas consegui” E deixou um recado para quem ainda está na fila: “Quero que as pessoas com deficiência nunca desistam do seu sonho, porque somos capazes de conquistar”
O recado que fica é que Mato Grosso do Sul tem se firmado como um estado que investe em infraestrutura, logística e desenvolvimento econômico. A história de Paula mostra que desenvolvimento também se mede em outra régua: na capacidade de um serviço público chegar a quem mais precisa dele.
Quatro carros não resolvem tudo. Doze pessoas atendidas não são a totalidade da demanda. Mas há algo de muito concreto quando um investimento público cruza a porta de uma agência do Detran em Nova Andradina e termina no rosto de uma mulher de 37 anos comemorando o aniversário com a carteira de motorista na mão.
Esse é o tipo de resultado que não aparece em planilha de execução orçamentária. Aparece na vida das pessoas.