A política não perdoa farsantes
A política é uma arte, e, como toda arte, exige técnica, leitura de ambiente e inteligência emocional.
Não se faz política com o fígado, no impulso da raiva ou do ressentimento. Também não se faz sozinho, nem à margem do consenso possível. Quem decide entrar na vida pública precisa entender cedo que mandato não é palco para desabafo: é espaço de construção.
Agentes políticos precisam saber conversar, propor ideias, compor acordos, negociar condições e, principalmente, entender o cenário e o eleitor. Isso vale para a tribuna, para o gabinete e para a rotina de articulação nos bastidores — onde, na prática, as coisas acontecem.
Em Mato Grosso do Sul, alguns que foram eleitos pela gritaria da torcida e pelo fanatismo em torno de um ou outro ícone não se sustentaram no cargo. Ou pela inutilidade pública — quando não entregam nada de concreto —, ou pela hostilidade corporativa no ambiente de trabalho, quando transformam a convivência institucional em guerra permanente. Outros, que escaparam da degola no primeiro teste, hoje erram por outro caminho: excesso de desconfiança e ego inflado. O resultado costuma ser o mesmo: acabam escanteados, inclusive por lideranças nacionais, porque ninguém investe energia política em quem só produz ruído e instabilidade.
E há um caso que ilustra bem como a política cobra coerência e maturidade: a figura que se vendia como paladino da moral e da honestidade e, hoje, divide chapa com aquele que antes chamava de arqui-inimigo — “corrupto” e “bandido”, no vocabulário inflamado de ontem. A política admite composição, alianças e reconfigurações. O que ela não perdoa com facilidade é a encenação de virtude absoluta que, mais cedo ou mais tarde, cai por contradição.
Outro traço marcante do nosso tempo — e que precisa ser dito com clareza — é que políticos que vivem de lacração nas redes sociais não servem para exercer cargo público. Eles precisam do conflito para existir, do caos para engajar, da polêmica para manter alcance. O problema é que esse modelo não gera governabilidade: gera desgaste. Na hora de transformar discurso em projeto, e projeto em voto dentro das instituições, falta o essencial: confiança, diálogo e base de apoio. Quando existe algum projeto — o que nem sempre acontece —, ele morre por isolamento, porque a pessoa vira uma figura problemática e perigosa para a imagem de qualquer grupo, alguém que ninguém quer associar ao próprio nome. A política real não se sustenta em “tretas”; ela se sustenta em resultado.
Enfim, na política não prospera quem não conhece a arte. E isso não significa ser falso, conivente ou se envolver em atos imorais ou ilícitos. Significa entender o jogo democrático: articular, escolher as brigas certas, construir pontes e entregar. A longevidade do jogador não vem da gritaria — vem da capacidade de construir.
Sim, é possível ter ideologia, ter opinião, ser justo, prezar pela integridade do cargo. Mas o grande político sabe falar, sabe como falar, sabe de quem falar e quando falar — e, principalmente, sabe quando calar. Porque maturidade política não é ausência de convicção: é a habilidade de transformar convicção em ação concreta, sem destruir as condições mínimas de convivência que tornam a democracia possível.