Crônica: O CAOS previsto no Autódromo – Quando Campo Grande troca alegria por burocracia
Era noite de rock em Campo Grande, mas o que rolou na BR-262 foi um show à parte: um engarrafamento épico que parou até as motos. Às 18h desta quinta-feira (9), a Avenida Ministro João Arinos e a rodovia viraram um mar de lanternas traseiras, com filas que se estendiam por mais de 10 km até o Autódromo Internacional Orlando Moura.
Cerca de 35 mil fãs do Guns N’ Roses tentavam chegar ao local, mas caminhões ignorando a restrição de circulação. A organização de trânsito tentou o que pode. Guardas da GCM, PM, Detran e PRF estavam lá, suando sangue para tentar manter o mínimo de civilidade e respeito para evitar uma tragédia. Mas o resultado já era previsto: horas de imobilidade total, impacto até a Escola Estadual Hércules Maymone e motoristas desistindo, abandonando carros nas margens das vias para ir a pé e não perder o resto da festa.
Esse caos era esperado. Todos sabiam que o aceso ao autódromo é um gargalo grave discutido há anos. Não é culpa da corajosa e impecável produção do evento, que surpreendeu a cidade quando anunciou o show. O público apoiou, compareceu, lotou a casa com o ícone do rock mundial. Mas o problema é antigo: Campo Grande, essa capital jovem que insiste em envelhecer sem graça, nunca moveu uma vírgula para fomentar ou apoiar o setor de eventos. Pelo contrário. Gestões sucessivas afogaram produtores em burocracias intermináveis, perseguiram iniciativas com interdições arbitrárias e negaram autorizações para tantos eventos, festas e encontros que poderiam injetar vida – e dinheiro – na economia local.
São proibições em praças e parques… Blitze contra som ao ar livre… Exigências que transformam um simples evento em novela de aprovação… Sem falar na falta crônica de investimento em infraestrutura. Onde está o espaço moderno, com acessos dignos, estacionamentos amplos e qualidade humana para o público? Em vez disso, tratamos 35 mil pessoas como gado no Autódromo, um local improvisado para megaeventos, sem vias preparadas para o fluxo. Não é rock ‘n’ roll, é negligência.
Culpar a produção pelo trânsito na BR-262 é fácil, mas injusto. As gestões dessa capital sempre preferiram o marasmo à animação, o sossego à festança, o silêncio à música.
Não é preciso ser inteligente para entender que grandes eventos geram empregos, turismo, renda para hotéis, bares e transportes. Mas aqui, priorizamos o “não”, o fiscalizado, o interditado.
Resultado: uma cidade que perde a chance de brilhar, enquanto fãs suam no asfalto por um refrão de “Sweet Child O’ Mine”.
Campo Grande merece mais. Um autódromo de verdade, um estádio de verdade, uma arena de shows de verdade, rodovias de verdade, políticas de verdade! Precisamos de uma prefeitura que incentive produtores em vez de persegui-los e sufocá-los. Do contrário, continuaremos noticiando o caos – e não o maior e mais histórico show que Campo Grande já recebeu.
Que vergonha! Perdão, Axl?!